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Economia · Política

A semana depois das urnas: meta fiscal, transição e o Copom de 4 de novembro

O governo reeleito prometeu um projeto para cumprir o centro da meta de 2027, a oposição anunciou que vai fazer do Congresso sua base e o mercado passou a apostar em pausa nos juros. O que já é fato e o que ainda é sinal.

Vandic Rocha29 de outubro de 20267 min de leitura

Quatro dias depois do segundo turno, a fotografia mudou pouco no placar e bastante no tom. O resultado foi reconhecido pelos principais partidos, o governo começou a dar sinais sobre as contas públicas e a oposição definiu onde vai atuar. Enquanto isso, a bolsa seguiu em queda e o câmbio ficou acima do que os economistas projetavam antes da eleição. Este texto organiza o que aconteceu entre segunda, 26, e quarta-feira, 28 de outubro, e o que vem na próxima semana.

O resultado está assentado

Na noite da eleição, Flávio Bolsonaro (PL) chegou a dizer que pediria a anulação do pleito, citando a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu o horário de votação em seções com fila. No dia seguinte, a direção do PL divulgou nota reconhecendo o resultado proclamado pelo TSE, e os partidos do centrão fizeram o mesmo. Flávio mudou o tom: deixou de falar em anulação e anunciou uma ação pedindo a cassação da chapa vencedora por abuso de poder econômico, mirando o pacote de benefícios lançado durante a campanha. Segundo a Folha, não haverá contestação das urnas nem da prorrogação do horário.

O senador também disse que vai reunir deputados e senadores eleitos para organizar a oposição e transformar o Congresso numa "fortaleza". O PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado a partir de fevereiro de 2027, o que dá peso a essa estratégia.

26/10PL e partidos do centrão reconhecem o resultado proclamado pelo TSE
27/10Fazenda anuncia projeto para perseguir o centro da meta fiscal de 2027
04/11decisão do Copom, a primeira depois da eleição
até dezprazo citado pelo PT para o anúncio do novo ministro da Fazenda

O sinal fiscal do governo

Na terça-feira, 27, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o governo vai mandar ao Congresso um projeto, possivelmente uma lei complementar, para perseguir o centro da meta fiscal de 2027, e não apenas o piso da banda. Na prática, a mudança amplia a capacidade de bloquear despesas dos ministérios ao longo do ano. O formato final ainda depende de análise jurídica e da decisão do presidente. Durigan disse também que autorizou o Tesouro a fazer novas recompras de títulos, se a avaliação técnica indicar, e que outras medidas estão em estudo.

Para dimensionar: a proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, enviada em abril, fixa a meta do governo central em superávit primário de 0,5% do PIB, cerca de R$ 73,2 bilhões, com tolerância de 0,25 ponto para cima ou para baixo. Pela regra atual, um resultado a partir de 0,25% do PIB já cumpre a meta. O que o governo sinaliza agora é mirar os 0,5%.

Meta de 2027 (PLDO)% do PIBR$ bilhões
Piso da banda0,25%36,6
Centro da meta0,50%73,2
Teto da banda0,75%—

Na mesma semana, Durigan disse que o governo deve enviar ao Congresso o texto que define as alíquotas do Imposto Seletivo, criado pela reforma tributária e com cobrança prevista a partir de 2027. O tributo incide sobre cigarros, bebidas alcoólicas e açucaradas, veículos, embarcações e aeronaves, bens minerais e apostas, e a proposta orçamentária estima arrecadação de R$ 41,9 bilhões no primeiro ano. Até a manhã de quinta-feira, 29, o envio não tinha sido confirmado.

Do lado político, o presidente do PT, Edinho Silva, disse em entrevista na segunda-feira que o próximo ministro da Fazenda será anunciado até o fim do ano, que será "alguém da extrema confiança" de Lula e que o presidente não vai abrir mão do superávit primário. Ele também defendeu revisar benefícios tributários, que estima em cerca de 4% do PIB. Segundo a Folha, Lula sinalizou a aliados que quer o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, no novo mandato, com a Fazenda como cargo mais cotado, e o vice-presidente Geraldo Alckmin aparece como alternativa. Não há decisão. Fonteles disse à GloboNews que nunca tratou de cargo com o presidente e que pretende tomar posse no estado em janeiro.

O que diz cada lado

O governo argumenta que o compromisso com o superávit e com o centro da meta mostra responsabilidade fiscal, e que a estabilidade deve vir por diálogo com o mercado e com o Congresso. Defende ainda que rever benefícios tributários é uma forma de equilibrar as contas sem cortar programas sociais.

Parte dos economistas considera que o anúncio vai na direção certa, mas cobra medidas concretas ainda em 2026. O ex-secretário do Tesouro Jeferson Bittencourt, hoje na ASA, disse ao NeoFeed que não há tempo para deixar o ajuste só para o ano que vem. A dúvida central é se discursos e projetos, sem cortes definidos, bastam para reancorar as expectativas.

A oposição diz que vai usar a maioria que projeta nas duas Casas para barrar o que considerar excesso de gasto e para fiscalizar o governo, além de contestar na Justiça Eleitoral o uso de benefícios durante a campanha. Para o governo, isso significa negociar votação a votação, inclusive o próprio projeto da meta.

O projeto da meta fiscal depende do mesmo Congresso que a oposição quer transformar em trincheira.

O mercado na semana

Depois do tombo de segunda-feira, quando o dólar subiu 8,21% e o Ibovespa caiu 13,88%, o câmbio recuou um pouco e a bolsa continuou caindo. Na quarta-feira, 28, o Ibovespa fechou em 171.006 pontos, terceiro pregão seguido de queda e menor nível desde 20 de agosto. O dólar fechou a R$ 5,34, em leve baixa de 0,19%. Na segunda-feira, investidores estrangeiros retiraram R$ 2,846 bilhões da bolsa.

171.006pontos do Ibovespa em 28/10 (−2,68% no dia)
−16,6%Ibovespa na semana, até 28/10
R$ 5,34dólar em 28/10 (+6,95% na semana)
R$ 5,05dólar projetado pelo Focus para o fim de 2026, em pesquisa feita antes da eleição

No exterior, o Federal Reserve manteve os juros americanos entre 3,75% e 4% na quarta-feira, como esperado, com pouco efeito sobre os ativos brasileiros.

O Copom de 4 de novembro

A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, depois de cinco cortes seguidos. O Comitê de Política Monetária se reúne em 3 e 4 de novembro, com decisão na noite de quarta-feira, e volta a se reunir em 8 e 9 de dezembro.

Até a semana passada, o cenário dominante era mais um corte de 0,25 ponto. Isso mudou. Pelo Termômetro do Copom, do Valor Investe, que usa opções negociadas na B3, a probabilidade de manutenção da taxa passou de 17,5% em 23 de outubro para 62% em 27 de outubro, enquanto a de corte caiu de 76% para 28%. Esses números refletem apostas de mercado num dado momento, não uma decisão.

Cenário para 4/1123/1027/10
Corte para 13,50%76%28%
Manutenção em 13,75%17,5%62%

Os argumentos para pausar são o câmbio mais alto, que encarece importados e pode pressionar a inflação, e o IPCA de 12 meses em 4,58% em setembro, acima do teto de 4,5% da meta. Os argumentos para cortar são a atividade mais fraca, com PIB projetado em 1,8% para 2026, e a leitura de que parte do choque de câmbio pode se desfazer. O Boletim Focus da próxima segunda-feira, 2 de novembro, será o primeiro com respostas coletadas depois do segundo turno.

O que isso muda para quem opera AVAC-R e indústria

O que observar nos próximos dias

Este texto é informativo e não constitui recomendação de investimento. Os números vêm das fontes listadas abaixo, com as datas indicadas, e podem ser revistos pelas próprias instituições. As posições políticas descritas são dos atores citados.
Fontes
  1. ac24horas / Folha de S.Paulo — PL reconhece derrota para Lula, e Flávio Bolsonaro diz que vai liderar oposição (26/10/2026)
  2. Brasil 247 — Após PL reconhecer vitória de Lula, Flávio diz que vai fazer do Congresso "fortaleza da oposição"
  3. O Antagonista — Fazenda prepara projeto para perseguir centro da meta fiscal, diz Durigan (27/10/2026)
  4. Portal do Agronegócio — Governo promete projeto para reforçar meta fiscal de 2027 (28/10/2026)
  5. NeoFeed — Lula 4 acena ao mercado, mas só discursos bastam para ancorar as expectativas?
  6. A Crítica / Broadcast Político — Lula escolherá ministro da Fazenda até o fim do ano e manterá meta fiscal, diz Edinho (26/10/2026)
  7. Cidades em Foco / Folhapress — Lula sinaliza a aliados que pode indicar Rafael para a Fazenda; Alckmin é opção (27/10/2026)
  8. Paraíba Business — Durigan anuncia projeto do Imposto Seletivo, que deve arrecadar R$ 41,9 bilhões em 2027 (27/10/2026)
  9. Metrópoles — Durigan: texto do "imposto do pecado" deve ser enviado essa semana (27/10/2026)
  10. Câmara dos Deputados — Informativo PLDO 2027
  11. Itabira Online / Agência Brasil — Ibovespa cai 2,68% e dólar fecha a R$ 5,34 (28/10/2026)
  12. A Crítica — Ibovespa cai 2,68% e dólar fecha a R$ 5,34 em dia de pressão no mercado (28/10/2026)
  13. Investidor10 — Copom em 2026 terá oito reuniões; veja o cronograma
  14. Meelion — Copom novembro 2026: Selic vai a 13,50% ou para em 13,75%? (14/10/2026)
  15. Investir é Começar — Copom de 4 de novembro: aposta em pausa salta de 17,5% para 62% (28/10/2026, com dados do Termômetro do Copom/Valor Investe)
  16. Money Times — IGP-M desacelera em outubro para 1,47% e fica abaixo das expectativas, diz FGV (29/10/2026)
  17. Jornal do Comércio — IGP-M sobe 1,47% em outubro ante 1,57% em setembro (29/10/2026)
  18. Central do Varejo — Boletim Focus de 26/10/2026: IPCA de 2026 cai a 5,19% e PIB a 1,80%