Quatro dias depois do segundo turno, a fotografia mudou pouco no placar e bastante no tom. O resultado foi reconhecido pelos principais partidos, o governo começou a dar sinais sobre as contas públicas e a oposição definiu onde vai atuar. Enquanto isso, a bolsa seguiu em queda e o câmbio ficou acima do que os economistas projetavam antes da eleição. Este texto organiza o que aconteceu entre segunda, 26, e quarta-feira, 28 de outubro, e o que vem na próxima semana.
O resultado está assentado
Na noite da eleição, Flávio Bolsonaro (PL) chegou a dizer que pediria a anulação do pleito, citando a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu o horário de votação em seções com fila. No dia seguinte, a direção do PL divulgou nota reconhecendo o resultado proclamado pelo TSE, e os partidos do centrão fizeram o mesmo. Flávio mudou o tom: deixou de falar em anulação e anunciou uma ação pedindo a cassação da chapa vencedora por abuso de poder econômico, mirando o pacote de benefícios lançado durante a campanha. Segundo a Folha, não haverá contestação das urnas nem da prorrogação do horário.
O senador também disse que vai reunir deputados e senadores eleitos para organizar a oposição e transformar o Congresso numa "fortaleza". O PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado a partir de fevereiro de 2027, o que dá peso a essa estratégia.
O sinal fiscal do governo
Na terça-feira, 27, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o governo vai mandar ao Congresso um projeto, possivelmente uma lei complementar, para perseguir o centro da meta fiscal de 2027, e não apenas o piso da banda. Na prática, a mudança amplia a capacidade de bloquear despesas dos ministérios ao longo do ano. O formato final ainda depende de análise jurídica e da decisão do presidente. Durigan disse também que autorizou o Tesouro a fazer novas recompras de títulos, se a avaliação técnica indicar, e que outras medidas estão em estudo.
Para dimensionar: a proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, enviada em abril, fixa a meta do governo central em superávit primário de 0,5% do PIB, cerca de R$ 73,2 bilhões, com tolerância de 0,25 ponto para cima ou para baixo. Pela regra atual, um resultado a partir de 0,25% do PIB já cumpre a meta. O que o governo sinaliza agora é mirar os 0,5%.
| Meta de 2027 (PLDO) | % do PIB | R$ bilhões |
|---|---|---|
| Piso da banda | 0,25% | 36,6 |
| Centro da meta | 0,50% | 73,2 |
| Teto da banda | 0,75% | — |
Na mesma semana, Durigan disse que o governo deve enviar ao Congresso o texto que define as alíquotas do Imposto Seletivo, criado pela reforma tributária e com cobrança prevista a partir de 2027. O tributo incide sobre cigarros, bebidas alcoólicas e açucaradas, veículos, embarcações e aeronaves, bens minerais e apostas, e a proposta orçamentária estima arrecadação de R$ 41,9 bilhões no primeiro ano. Até a manhã de quinta-feira, 29, o envio não tinha sido confirmado.
Do lado político, o presidente do PT, Edinho Silva, disse em entrevista na segunda-feira que o próximo ministro da Fazenda será anunciado até o fim do ano, que será "alguém da extrema confiança" de Lula e que o presidente não vai abrir mão do superávit primário. Ele também defendeu revisar benefícios tributários, que estima em cerca de 4% do PIB. Segundo a Folha, Lula sinalizou a aliados que quer o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, no novo mandato, com a Fazenda como cargo mais cotado, e o vice-presidente Geraldo Alckmin aparece como alternativa. Não há decisão. Fonteles disse à GloboNews que nunca tratou de cargo com o presidente e que pretende tomar posse no estado em janeiro.
O que diz cada lado
O governo argumenta que o compromisso com o superávit e com o centro da meta mostra responsabilidade fiscal, e que a estabilidade deve vir por diálogo com o mercado e com o Congresso. Defende ainda que rever benefícios tributários é uma forma de equilibrar as contas sem cortar programas sociais.
Parte dos economistas considera que o anúncio vai na direção certa, mas cobra medidas concretas ainda em 2026. O ex-secretário do Tesouro Jeferson Bittencourt, hoje na ASA, disse ao NeoFeed que não há tempo para deixar o ajuste só para o ano que vem. A dúvida central é se discursos e projetos, sem cortes definidos, bastam para reancorar as expectativas.
A oposição diz que vai usar a maioria que projeta nas duas Casas para barrar o que considerar excesso de gasto e para fiscalizar o governo, além de contestar na Justiça Eleitoral o uso de benefícios durante a campanha. Para o governo, isso significa negociar votação a votação, inclusive o próprio projeto da meta.
O projeto da meta fiscal depende do mesmo Congresso que a oposição quer transformar em trincheira.
O mercado na semana
Depois do tombo de segunda-feira, quando o dólar subiu 8,21% e o Ibovespa caiu 13,88%, o câmbio recuou um pouco e a bolsa continuou caindo. Na quarta-feira, 28, o Ibovespa fechou em 171.006 pontos, terceiro pregão seguido de queda e menor nível desde 20 de agosto. O dólar fechou a R$ 5,34, em leve baixa de 0,19%. Na segunda-feira, investidores estrangeiros retiraram R$ 2,846 bilhões da bolsa.
No exterior, o Federal Reserve manteve os juros americanos entre 3,75% e 4% na quarta-feira, como esperado, com pouco efeito sobre os ativos brasileiros.
O Copom de 4 de novembro
A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, depois de cinco cortes seguidos. O Comitê de Política Monetária se reúne em 3 e 4 de novembro, com decisão na noite de quarta-feira, e volta a se reunir em 8 e 9 de dezembro.
Até a semana passada, o cenário dominante era mais um corte de 0,25 ponto. Isso mudou. Pelo Termômetro do Copom, do Valor Investe, que usa opções negociadas na B3, a probabilidade de manutenção da taxa passou de 17,5% em 23 de outubro para 62% em 27 de outubro, enquanto a de corte caiu de 76% para 28%. Esses números refletem apostas de mercado num dado momento, não uma decisão.
| Cenário para 4/11 | 23/10 | 27/10 |
|---|---|---|
| Corte para 13,50% | 76% | 28% |
| Manutenção em 13,75% | 17,5% | 62% |
Os argumentos para pausar são o câmbio mais alto, que encarece importados e pode pressionar a inflação, e o IPCA de 12 meses em 4,58% em setembro, acima do teto de 4,5% da meta. Os argumentos para cortar são a atividade mais fraca, com PIB projetado em 1,8% para 2026, e a leitura de que parte do choque de câmbio pode se desfazer. O Boletim Focus da próxima segunda-feira, 2 de novembro, será o primeiro com respostas coletadas depois do segundo turno.
O que isso muda para quem opera AVAC-R e indústria
- Propostas em reais. Com o dólar perto de R$ 5,34, cerca de 6% acima do que o Focus projetava para o fim do ano, vale revisar validade e cláusulas de reajuste cambial de propostas com equipamento importado.
- Crédito para retrofit. Uma pausa na Selic mantém o financiamento caro por mais tempo. Projetos que reduzem conta de energia continuam se defendendo pela economia operacional, mas o prazo de retorno precisa ser recalculado com juros atuais.
- Reajustes por IGP-M. O índice subiu 1,47% em outubro, abaixo do esperado, e acumula 5,24% em 12 meses, segundo a FGV. Contratos de manutenção e locação corrigidos por ele terão reajuste maior que o IPCA, que estava em 4,58% em 12 meses até setembro.
- Contratos públicos. Se o governo de fato perseguir o centro da meta, bloqueios de despesa em 2027 podem atrasar obras e manutenções contratadas por órgãos federais. Vale acompanhar o projeto quando chegar ao Congresso.
O que observar nos próximos dias
- 30/10 · Fim do prazo para prestadoras de ativos virtuais pedirem autorização ao Banco Central (tema do ensaio anterior).
- 02/11 · Primeiro Boletim Focus com expectativas coletadas depois da eleição.
- 04/11 · Decisão do Copom.
- Esta semana · Envio previsto do texto do Imposto Seletivo ao Congresso.
- Sem data · Envio do projeto da meta fiscal ao Congresso e anúncio da equipe econômica do novo mandato.
- ac24horas / Folha de S.Paulo — PL reconhece derrota para Lula, e Flávio Bolsonaro diz que vai liderar oposição (26/10/2026)
- Brasil 247 — Após PL reconhecer vitória de Lula, Flávio diz que vai fazer do Congresso "fortaleza da oposição"
- O Antagonista — Fazenda prepara projeto para perseguir centro da meta fiscal, diz Durigan (27/10/2026)
- Portal do Agronegócio — Governo promete projeto para reforçar meta fiscal de 2027 (28/10/2026)
- NeoFeed — Lula 4 acena ao mercado, mas só discursos bastam para ancorar as expectativas?
- A Crítica / Broadcast Político — Lula escolherá ministro da Fazenda até o fim do ano e manterá meta fiscal, diz Edinho (26/10/2026)
- Cidades em Foco / Folhapress — Lula sinaliza a aliados que pode indicar Rafael para a Fazenda; Alckmin é opção (27/10/2026)
- Paraíba Business — Durigan anuncia projeto do Imposto Seletivo, que deve arrecadar R$ 41,9 bilhões em 2027 (27/10/2026)
- Metrópoles — Durigan: texto do "imposto do pecado" deve ser enviado essa semana (27/10/2026)
- Câmara dos Deputados — Informativo PLDO 2027
- Itabira Online / Agência Brasil — Ibovespa cai 2,68% e dólar fecha a R$ 5,34 (28/10/2026)
- A Crítica — Ibovespa cai 2,68% e dólar fecha a R$ 5,34 em dia de pressão no mercado (28/10/2026)
- Investidor10 — Copom em 2026 terá oito reuniões; veja o cronograma
- Meelion — Copom novembro 2026: Selic vai a 13,50% ou para em 13,75%? (14/10/2026)
- Investir é Começar — Copom de 4 de novembro: aposta em pausa salta de 17,5% para 62% (28/10/2026, com dados do Termômetro do Copom/Valor Investe)
- Money Times — IGP-M desacelera em outubro para 1,47% e fica abaixo das expectativas, diz FGV (29/10/2026)
- Jornal do Comércio — IGP-M sobe 1,47% em outubro ante 1,57% em setembro (29/10/2026)
- Central do Varejo — Boletim Focus de 26/10/2026: IPCA de 2026 cai a 5,19% e PIB a 1,80%